Com o olhar voltado para o futuro do cuidado em saúde, o município de Campo Grande (MS) deu um passo ousado e pioneiro ao implantar um serviço de Teleinterconsulta e Teleconsulta em Fisioterapia na Atenção Primária à Saúde (APS). A iniciativa, coordenada pelas professoras doutoras Leila Foerster Merey e Mara Lisiane dos Santos, nasce da parceria entre o Projeto TEIAS (Territórios Integrados à Saúde), a Secretaria Municipal de Saúde (SESAU) e profissionais da linha de frente da APS.
Por que essa proposta é necessária?
A proposta surgiu como resposta a um desafio concreto: o número elevado de solicitações para fisioterapia registrado pelo Sistema Nacional de Regulação (SISREG), que somente em 2022 contabilizou mais de 3.200 agendamentos. Somam-se a isso o envelhecimento da população, o aumento das doenças musculoesqueléticas e as diretrizes internacionais da OMS voltadas à reabilitação até 2030.
A implementação se alinha à Portaria GM/MS Nº 635, que regulamenta as equipes multiprofissionais (eMulti) e à Resolução CFM Nº 2.314, permitindo que o atendimento remoto ocorra de forma assistida por profissionais da saúde, garantindo cuidado humanizado mesmo à distância.
Como funciona na prática?
A proposta operacional é simples e eficiente: médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e até profissionais de educação física podem agendar as teleconsultas para usuários do SUS que apresentem condições específicas, como dor crônica, doenças reumatológicas, pós-operatórios ou lesões relacionadas ao trabalho.
O atendimento remoto é feito com fisioterapeutas especialistas, por meio de plantões realizados no período vespertino, com duração de até 45 minutos por consulta. Cada plantonista realiza cerca de cinco atendimentos por dia.
A equipe abastece o sistema com dados clínicos, e o paciente pode estar presente na unidade ou ser atendido diretamente de casa. A proposta prevê ainda o uso de escalas, testes e orientações de autocuidado, com envio de materiais digitais e, quando necessário, reagendamento para seguimento.
Resultados já visíveis
A Unidade de Saúde da Família (USF) Santa Emília, escolhida como piloto, destacou-se pelo engajamento da equipe e pelo número expressivo de atendimentos agendados, mesmo sem contar com fisioterapeutas residentes. A primeira teleinterconsulta foi realizada em abril de 2024, e desde então o projeto tem demonstrado benefícios como:
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Redução das filas de espera na regulação;
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Diminuição do absenteísmo;
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Economia de tempo e deslocamento para os usuários;
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Maior vínculo entre profissionais da APS e especialistas, fortalecendo a linha do cuidado funcional.
Perspectivas
A expectativa é que o projeto seja ampliado para outras unidades da rede, servindo como modelo replicável em outras regiões. A tecnologia, nesse contexto, deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a ser ponte entre o cuidado especializado e a vida cotidiana dos usuários do SUS, promovendo qualidade de vida, autonomia e eficiência no sistema público de saúde.