A violência contra a mulher configura-se como uma das mais duradouras e graves violações dos direitos humanos, representando um desafio complexo para a saúde pública contemporânea. Além dos danos físicos imediatos, o ciclo de agressões físicas, psicológicas, sexuais e patrimoniais desencadeia processos crônicos de adoecimento, manifestados em quadros graves de ansiedade, depressão, dores somáticas persistentes e perda progressiva da autonomia. Diante dessa realidade, as unidades de Atenção Primária à Saúde (APS) surgem como o espaço privilegiado para a identificação precoce e o acolhimento dessas demandas. A recente roda de conversa promovida pela Unidade de Saúde da Família (USF) Paulo Coelho Machado, no âmbito da campanha Agosto Lilás, ilustra a importância de transformar o espaço clínico em um ambiente de escuta qualificada, articulando o conhecimento científico à prática comunitária para romper o isolamento imposto às vítimas.
A atuação das equipes de saúde da família frente à violência de gênero encontra fundamentação nas diretrizes do Ministério da Saúde e nas recomendações internacionais da Organização Pan-Americana da Saúde. Sob essa perspectiva, o atendimento às mulheres em situação de vulnerabilidade exige a superação do modelo biomédico focado na queixa-conduta, demandando uma abordagem interdisciplinar e centrada nas necessidades integrais do sujeito. Estudos apontam que os serviços de atenção básica constituem, frequentemente, o primeiro e único ponto de contato da mulher com a rede assistencial, uma vez que as marcas da violência costumam ser mascaradas por queixas vagas e recorrentes durante as consultas de rotina. Portanto, a capacitação das equipes para identificar os sinais indiretos do abuso e a oferta de espaços coletivos de fala são estratégias fundamentais para desnaturalizar a opressão cotidiana exercida nas relações interpessoais.
A utilização de metodologias participativas, como as rodas de conversa, atua como uma tecnologia leve de cuidado capaz de fortalecer os laços comunitários e promover o letramento em saúde. O isolamento social, frequentemente utilizado pelo agressor como mecanismo de dominação, é gradativamente desconstruído quando as mulheres encontram na unidade de saúde um local seguro para o compartilhamento de vivências e o reconhecimento de seus direitos. A transposição do sofrimento privado para a esfera do debate coletivo permite a identificação de formas veladas de violência, como a psicológica e a moral, que antecedem e acompanham as agressões físicas. Essa dimensão preventiva alinha-se aos preceitos da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), que enfatiza o papel da educação e da conscientização comunitária na transformação de padrões socioculturais discriminatórios.
Apesar da relevância dessas iniciativas, a consolidação de ações educativas na APS expõe gargalos históricos que dificultam a continuidade e a eficácia do enfrentamento à violência de gênero no Brasil. A atuação isolada do setor de saúde mostra-se insuficiente se não estiver integrada a uma rede intersetorial coesa, composta por serviços de assistência social, segurança pública e sistema de justiça. A notificação compulsória no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), embora seja um instrumento indispensável para o mapeamento epidemiológico, ainda enfrenta barreiras relacionadas ao receio dos profissionais quanto à própria segurança e à falta de alinhamento dos fluxos de atendimento. O fortalecimento permanente dessas intervenções exige a institucionalização de programas de educação permanente para os trabalhadores da saúde, o financiamento adequado da rede socioassistencial e a garantia de que as ações do Agosto Lilás se desdobrem em práticas contínuas ao longo de todo o ano.