A persistência da dengue como um dos principais desafios de saúde pública no Brasil exige constante reformulação das estratégias de controle vetorial e de mobilização social no âmbito da Atenção Primária à Saúde. A transmissão do vírus, mediada pelo vetor Aedes aegypti, apresenta padrões complexos influenciados por determinantes socioambientais, como o saneamento básico precário, a descontinuidade no abastecimento de água e as mudanças climáticas globais. Nesse cenário de vulnerabilidade sanitária, as intervenções pontuais e exclusivamente aplicadas no período epidêmico têm se mostrado insuficientes. A literatura epidemiológica aponta para a necessidade de abordagens contínuas, pautadas no modelo de vigilância em saúde territorializada, onde a integração entre a Estratégia Saúde da Família e as ações de controle de endemias desempenha papel central para a redução dos índices de infestação predial e a mitigação da morbimortalidade associada às arboviroses.
A operacionalização dessa vigilância no cotidiano das Unidades Básicas de Saúde encontra na atuação conjunta entre os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e os Agentes de Combate às Endemias (ACE) o seu pilar de sustentação. Experiências como a desenvolvida na Unidade de Saúde da Família Los Angeles, na qual os profissionais promoveram uma atividade de sala de espera voltada ao fortalecimento do Dia D de Combate à Dengue, ilustram o potencial pedagógico da Educação em Saúde no contexto da atenção primária. A sala de espera constitui-se como um espaço dinâmico de mediação do conhecimento, onde o tempo de aguardo do usuário para consultas ou procedimentos é convertido em oportunidade para o letramento em saúde. A interação direta entre os agentes e a comunidade nesses momentos rompe com a lógica verticalizada da transmissão de informações, favorecendo a construção coletiva de estratégias preventivas viáveis para o contexto sociocultural do território.
Sob a ótica do trabalho interdisciplinar, a convergência entre os saberes do ACS fundamentados no vínculo comunitário, no cadastramento familiar e no acompanhamento contínuo dos domicílios e as competências técnicas do ACE focadas na identificação de criadouros, controle biológico e manejo do vetor otimiza o rastreamento de focos do mosquito e a cobertura das visitas domiciliares. A Diretriz Nacional para a Prevenção e Controle de Epidemias de Dengue destaca que o isolamento dessas categorias profissionais fragiliza a vigilância em saúde. Por outro lado, quando há planejamento integrado, o ACS atua como um facilitador do acesso do ACE às residências que apresentam resistência à inspeção, enquanto o ACE capacita o ACS para a identificação precoce de depósitos de água de alto risco, refinando o olhar preventivo durante as visitas de rotina.
Contudo, a análise crítica das políticas públicas de enfrentamento às arboviroses no Brasil revela que a realização de campanhas pontuais e de salas de espera, embora essenciais, enfrenta limitações estruturais profundas quando desconectada de investimentos perenes em infraestrutura urbana e gestão de pessoal. A dependência de ações individuais de eliminação de criadouros transfere com frequência a responsabilidade do controle vetorial exclusivamente para a população, negligenciando a responsabilidade do Estado na garantia de serviços básicos de saneamento e coleta de lixo. Além disso, a precarização dos laços trabalhistas de ACS e ACE e a escassez de materiais de proteção e trabalho afetam diretamente a sustentabilidade das ações territoriais. Para que iniciativas como as desenvolvidas na USF Los Angeles transcendam o caráter pontual e gerem impacto duradouro na densidade vetorial, é imprescindível que a integração entre a vigilância epidemiológica e a atenção primária seja acompanhada de fortalecimento orçamentário, capacitação técnica continuada e articulação intersetorial efetiva.