A integração entre as instituições de ensino superior e o Sistema Único de Saúde (SUS) representa um dos pilares mais decisivos para o fortalecimento do modelo assistencial brasileiro. O recente acolhimento de graduandos de medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) pelos programas de residência médica e multiprofissional do Qualifica APS exemplifica a operacionalização do princípio da integração ensino-serviço-comunidade. Essa aproximação precoce visa redefinir a formação médica ao conectar os futuros profissionais à complexidade e à relevância estratégica da Atenção Primária à Saúde (APS) desde os primeiros passos da trajetória acadêmica.
A Atenção Primária à Saúde constitui o centro coordenador do cuidado e a principal porta de entrada das redes de atenção, sendo responsável por resolver cerca de 80% das demandas de saúde da população. No entanto, o ensino médico historicamente pautou-se por um modelo hospitalocêntrico, focado na fragmentação do saber e na superespecialização. As Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Medicina enfatizam a necessidade de formar profissionais com perfil generalista, crítico, reflexivo e humanista, aptos a atuar nos diferentes níveis de atenção com foco nas necessidades sociais em saúde. Inserir o acadêmico no cotidiano das Unidades Básicas de Saúde sob a mentoria de residentes e preceptores favorece a construção do raciocínio clínico pautado na determinação social do processo saúde-doença.
A presença dos Programas de Residência em Saúde como indutores da qualidade assistencial no ambiente da Estratégia Saúde da Família (ESF) atua como um vetor de transformação mútua. Para o residente, o programa consolida o aprendizado baseado na prática reflexiva e no trabalho colaborativo interprofissional. Para o estudante do primeiro ano de graduação, o contato com o residente desmistifica a atuação na APS e demonstra o rigor técnico, científico e relacional necessário para o manejo de condições crônicas, para o acompanhamento longitudinal das famílias e para a promoção da saúde no território. Esse diálogo intergeracional na formação médica reduz a lacuna entre a teoria aprendida em sala de aula e os desafios epidemiológicos reais enfrentados pelas equipes de saúde.
Superar a escassez e a fixação de médicos em territórios vulneráveis e no âmbito da APS exige estratégias estruturantes de longo prazo. A literatura aponta que a exposição precoce e positiva ao SUS durante a graduação, combinada com a oferta de programas de residência qualificados, é o fator de maior correlação com a fixação futura de profissionais na Atenção Primária. O envolvimento de programas consolidados como o Qualifica APS no acolhimento de ingressantes universitários fortalece a identidade profissional voltada à saúde pública e reafirma a urgência de consolidar a Estratégia Saúde da Família não apenas como um campo de prática, mas como o coração científico e operacional do sistema sanitário nacional.