A atenção à saúde mental no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) passou por profundas transformações epistemológicas e práticas desde a Reforma Psiquiátrica brasileira, deslocando o foco do isolamento asilar para o cuidado comunitário e territorial. Nesse cenário, o Grupo de Saúde Mental "Caminhos do Cuidado", conduzido por residentes de Psicologia e Serviço Social nesta segunda-feira, 3 de agosto de 2026, exemplifica a operacionalização dos princípios da interdisciplinaridade e da territorialização na Atenção Primária à Saúde. A integração entre a dimensão psíquica e a determinação social do processo saúde-doença constitui um alicerce fundamental para responder à crescente complexidade das demandas de sofrimento etiológico no nível primário de atenção.
A condução conjunta por profissionais da Psicologia e do Serviço Social não representa apenas uma divisão de tarefas operacionais, mas sim a convergência de saberes necessários para a apreensão da subjetividade humana em suas condicionantes socioeconômicas. Conforme apontam Costa e Silva, o sofrimento mental manifestado na Atenção Primária frequentemente guarda relação direta com vulnerabilidades estruturais, tais como desemprego, violência doméstica e fragilização dos laços comunitários. A abordagem grupal, sob a lente multiprofissional, permite a ressignificação das vivências individuais a partir do compartilhamento coletivo, atuando como um potente dispositivo de ampliação da autonomia e de desmedicalização da vida cotidiana.
O embasamento científico para intervenções grupais de caráter psicossocial no nível primário de atenção fundamenta-se nos preceitos da Promoção da Saúde e da Prevenção de Agravos da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Estudos demonstraram que atividades focadas no fortalecimento de redes de apoio social e no desenvolvimento de estratégias de enfrentamento (coping) reduzem substancialmente a sobrecarga nos serviços de média e alta complexidade, além de otimizar o uso de psicofármacos na rede pública. A dinamização promovida no Grupo "Caminhos do Cuidado" estimula o protagonismo dos usuários, transformando o espaço da unidade de saúde em um ambiente de escuta qualificada e reconstrução de projetos de vida.
Sob a perspectiva da saúde pública brasileira, a consolidação de estratégias como o Grupo "Caminhos do Cuidado" reafirma a urgência do financiamento contínuo e da valorização das residências multiprofissionais na Saúde da Família. O fortalecimento de ações dessa natureza enfrenta o desafio histórico de superar a fragmentação do cuidado e o modelo biomédico hegemônico, consolidando a Atenção Primária como a principal ordenadora da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A promoção do cuidado integral e territorializado na saúde mental não apenas eleva a eficiência do sistema, mas atua como um vetor indispensável de justiça social e garantia de direitos humanos fundamentais para as populações em situação de vulnerabilidade.