A atenção às condições crônicas no âmbito do Sistema Único de Saúde exige a superação do modelo ambulatorial passivo por meio de tecnologias de cuidado que aproximem a equipe de saúde do contexto real de vida dos usuários. No cenário do diabetes mellitus, a ocorrência de complicações neuropáticas e vasculares periféricas representa uma das causas mais frequentes de morbimortalidade, hospitalizações prolongadas e amputações não traumáticas de membros inferiores. Diante dessa problemática, a execução de visitas domiciliares com foco na avaliação estruturada do pé diabético, conforme praticada pela Unidade de Saúde da Família Paulo Coelho, consolida-se como um dispositivo estratégico de vigilância em saúde, garantindo a continuidade do cuidado para indivíduos com limitação de mobilidade ou em situação de extrema vulnerabilidade social.
A literatura científica indexada em bases de dados como SciELO e PubMed demonstra de forma consistente que a fisiopatologia das lesões em extremidades de pacientes diabéticos envolve uma complexa interação entre a perda da sensibilidade protetora, deformidades biomecânicas e a doença arterial periférica. De acordo com as diretrizes do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana da Saúde, o rastreamento periódico dessas alterações constitui uma intervenção de alta eficácia e baixo custo custo-efetivo. No entanto, a adesão ao exame clínico no ambiente consultorial muitas vezes enfrenta barreiras como o absenteísmo e a falta de percepção de risco pelo próprio paciente. A realização do exame clínico no próprio domicílio — incluindo a inspeção de dermatoses, a palpação dos pulsos pedioso e tibial posterior, e a testagem da sensibilidade com o monofilamento de Semmes-Weinstein permite superar essas barreiras geográficas e operacionais, assegurando a detecção precoce de pontos de pressão e de ulcerações em estágios iniciais.
Além do rigor técnico aplicado ao exame físico, a visita domiciliar promovida pela USF Paulo Coelho atua como uma ferramenta analítica dos determinantes sociais da saúde que condicionam a evolução da doença. O ambiente doméstico revela nuances do cotidiano que não emergem no atendimento Unidade Básica de Saúde, tais como as condições de saneamento, os hábitos de higienização dos pés, o tipo de calçado efetivamente utilizado na rotina e a dinâmica de suporte familiar para o autocuidado apoiado. Essa imersão territorial subsidia a equipe multiprofissional na elaboração de Projetos Terapêuticos Singulares mais realistas, onde as orientações preventivas são adaptadas às possibilidades materiais da família, fortalecendo a aliança terapêutica e reduzindo a assimetria de informação entre os profissionais e os usuários.
Sob a perspectiva da saúde pública brasileira, o fortalecimento da visita domiciliar associada ao rastreamento preventivo de complicações do diabetes alivia a sobrecarga financeira e assistencial dos níveis secundário e terciário de atenção. O custo do tratamento de uma lesão ulcerada complexa, frequentemente agravada por infecções secundárias que culminam em procedimentos cirúrgicos mutilantes, supera exponencialmente os recursos necessários para a manutenção de equipes de Saúde da Família estruturadas e proativas no território. A prática continuada da USF Paulo Coelho evidencia que a descentralização do cuidado e o olhar atento sobre o pé diabético no espaço domiciliar são imperativos não apenas éticos e clínicos, mas também econômicos, sendo fundamentais para a consolidação da equidade e da sustentabilidade do sistema sanitário nacional.