A dependência nicotínica permanece como uma das principais causas de morbimortalidade evitável no mundo, configurando um desafio complexo e multifatorial para a saúde pública global. No Sistema Único de Saúde (SUS), o controle do tabagismo é estruturado a partir da Atenção Primária à Saúde (APS), onde a Estratégia Saúde da Família (ESF) atua como o cenário ideal para a abordagem intensiva e longitudinal do fumante. A realização do quarto encontro de um grupo de abordagem intensiva ao tabagista representa um momento crítico no itinerário terapêutico dos participantes. Nesta fase do protocolo, que coincide frequentemente com a manutenção do cessation ou com as primeiras semanas de abstinência total, a equipe de saúde enfrenta o desafio de manejar os sintomas fisiológicos da fissura (craving), as alterações de humor e a reestruturação dos gatilhos comportamentais profundamente arraigados na rotina dos usuários.
A fundamentação científica que rege o tratamento do tabagismo na rede pública brasileira apoia-se nas diretrizes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e do Ministério da Saúde, em consonância com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). O modelo terapêutico estruturado combina a Abordagem Cognitivo-Comportamental (ACC) ao suporte farmacológico quando indicado, como a Terapia de Reposição de Nicotina (TRN) e a Bupropiona. Contudo, ao atingir o quarto encontro, a dinâmica do grupo sofre uma transição essencial: o foco inicial, que residia na conscientização dos danos e na preparação para o "dia D" da interrupção, desloca-se para a prevenção de recaídas e o fortalecimento do autocuidado apoiado. Conforme apontam Cruz e Pinho (2020), a eficácia dessa fase depende da capacidade da equipe multiprofissional em desconstruir os mecanismos psicológicos de compensação e na oferta de estratégias operacionais para lidar com o estresse sem o recurso ao cigarro.
O manejo da síndrome de abstinência durante esse período exige rigor técnico e sensibilidade clínica por parte dos profissionais de saúde. Sintomas como ansiedade, irritabilidade, insônia, aumento do apetite e labilidade emocional atingem picos significativos no primeiro mês de cessação, representando o principal fator de risco para a falha terapêutica. A discussão em grupo no quarto encontro permite a socialização dessas vivências, reduzindo o sentimento de isolamento do paciente e validando suas dificuldades sob uma perspectiva biopsicossocial. Segundo Reichert et al. (2018), a troca de experiências mediada por profissionais capacitados amplia a autoeficácia do indivíduo, permitindo que as estratégias de enfrentamento desenvolvidas por um participante sirvam de modelo para os demais, fortalecendo a coesão do grupo e a adesão ao acompanhamento contínuo.
Paralelamente ao suporte comportamental, a avaliação criteriosa da adesão e dos efeitos colaterais da medicação é indispensável nesta etapa. A farmacoterapia atua reduzindo o desconforto físico da abstinência, mas sua eficácia é limitada se desconectada das mudanças no estilo de vida. O acompanhamento dos parâmetros clínicos e a reavaliação constante da dosagem dos adesivos ou gomas de nicotina garantem que o desmame farmacológico ocorra de maneira segura e individualizada. A literatura científica demonstra que a combinação de intervenções psicossociais e farmacológicas na APS aumenta substancialmente as taxas de sucesso na cessação do tabagismo em longo prazo, quando comparada a intervenções isoladas ou não estruturadas.
A análise crítica da eficácia das ações de combate ao tabagismo na Atenção Primária revela que, embora o Brasil seja reconhecido internacionalmente pelo êxito de suas políticas de controle do tabaco, a sustentabilidade dos grupos de tratamento enfrenta gargalos estruturais relevantes. A rotatividade de profissionais nas equipes de Saúde da Família, a descontinuidade eventual na oferta de insumos farmacológicos e as barreiras socioeconômicas que impactam a assiduidade dos pacientes nos encontros semanais comprometem a consolidação dos resultados. Fortalecer a infraestrutura das unidades básicas, garantir a formação continuada das equipes e aprimorar o monitoramento epidemiológico dos egressos desses grupos são medidas imperativas para assegurar que o quarto encontro e as etapas subsequentes resultem na consolidação definitiva da cessação tabágica e na consequente redução do impacto das doenças crônicas não transmissíveis no país.