A busca por estratégias terapêuticas não farmacológicas que promovam o bem-estar psíquico e a reabilitação psicossocial tem ocupado um lugar central nos debates contemporâneos da saúde coletiva. No âmbito da Atenção Primária à Saúde, a Unidade de Saúde da Família configura-se como um cenário privilegiado para o desenvolvimento de tecnologias leves e leveduras de cuidado que extrapolem o modelo biomédico tradicional, frequentemente focado na prescrição medicamentosa e na medicalização do sofrimento psíquico. A implementação de intervenções baseadas na natureza, como a hortoterapia, emerge nesse contexto como um recurso potente para a promoção da saúde mental, estimulando a convivência comunitária, a autonomia e a ressignificação do cotidiano de usuários em sofrimento mental. Ao integrar a manipulação da terra, o cultivo de plantas e a convivência em grupo, a equipe de saúde da família desencadeia processos terapêuticos complexos que conectam aspectos neurobiológicos, emocionais e sociais, alinhando-se aos preceitos da Reforma Psiquiátrica brasileira e às diretrizes da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no Sistema Único de Saúde.
A fundamentação teórica da hortoterapia repousa no conceito de biofilia, postulado por Edward O. Wilson, que descreve a tendência inata do ser humano a afiliar-se a outras formas de vida e ao meio natural. Sob a perspectiva da neurociência e da psicologia ambiental, o contato sistemático com a natureza e o ato de cuidar de um organismo vivo promovem a redução dos níveis de cortisol circulante, a modulação do sistema nervoso autônomo e o estímulo às funções cognitivas, como a atenção sustentada e a memória de trabalho. Quando essa prática é conduzida no formato de grupo de saúde mental no Sistema Único de Saúde, soma-se aos benefícios fisiológicos a dimensão da intersubjetividade e do pertencimento social. A experiência desenvolvida pela Equipe Girassol exemplifica como o trabalho comunitário em torno do cultivo de uma horta pode atuar como um dispositivo de escuta qualificada e fortalecimento de vínculos, permitindo que sujeitos historicamente marginalizados por sua condição de sofrimento psíquico ocupem o lugar de produtores de vida e de cuidado.
O processo de trabalho na hortoterapia exige um planejamento interprofissional rigoroso, no qual as competências das diversas áreas da saúde se articulam para garantir que a atividade não se reduza a um mero passatempo, mas se constitua como um espaço analítico e terapêutico. Durante os encontros do grupo promovido pela Equipe Girassol, as etapas de preparo do solo, plantio, rega e colheita são correlacionadas simbolicamente com os ciclos vitais e com os processos internos de cada participante, permitindo a elaboração de sentimentos de ansiedade, frustração e luto, bem como o resgate da paciência e da esperança. A literatura científica aponta que a regularidade e a previsibilidade das tarefas agrícolas oferecem uma estrutura externa que auxilia na reorganização psíquica de pacientes com transtornos depressivos, ansiosos e psicóticos. A cooperação necessária para a manutenção do espaço vegetal fomenta a comunicação não violenta, a divisão de responsabilidades e a reconstrução do laço social, elementos fundamentais para a reinserção comunitária e para a diminuição das internações psiquiátricas recorrentes.
A análise crítica da inserção da hortoterapia na rotina das Unidades de Saúde da Família revela um impacto profundo na gestão do cuidado e na sustentabilidade do modelo de atenção psicossocial brasileiro. Ao diversificar as ofertas terapêuticas e valorizar os saberes populares ligados ao cultivo de plantas medicinais e alimentícias, o serviço de saúde reduz a dependência de psicofármacos e fortalece a coordenação do cuidado no território. O sucesso de intervenções como a conduzida pela Equipe Girassol demonstra que a efetividade da Atenção Primária não reside apenas na densidade tecnológica dos equipamentos ou na sofisticação dos exames complementares, mas na capacidade de criar espaços de acolhimento e produção de sentido para a vida comunitária. Fortalecer e institucionalizar as práticas integrativas no cotidiano do Sistema Único de Saúde é um passo indispensável para consolidar um modelo de atenção à saúde verdadeiramente humanizado, equânime e pautado na garantia dos direitos humanos.