A transição epidemiológica observada nas últimas décadas no Brasil reconfigurou o perfil de morbimortalidade da população, deslocando a predominância das doenças infectocontagiosas para o aumento vertiginoso das Doenças e Agravos Não Transmissíveis (DANT). Nesse cenário, o comportamento sedentário e a inatividade física despontam como fatores de risco modificáveis determinantes para a emergência de condições crônicas como hipertensão arterial, diabetes mellitus tipo 2, obesidade e distúrbios cardiovasculares. A análise dessa problemática sob a ótica da epidemiologia da atividade física permite compreender a distribuição e os determinantes do movimento humano no âmbito populacional, oferecendo subsídios empíricos para o planejamento de políticas públicas em saúde que superem o simples discurso prescritivo e alcancem a transformação social nos territórios cobertos pela Atenção Primária à Saúde.
Historicamente, o entendimento da atividade física transitou de uma abordagem puramente biomédica, centrada no gasto energético e na aptidão física, para uma perspectiva socioepidemiológica abrangente. A inatividade física é responsável por uma proporção considerável de mortes por todas as causas no mundo, assumindo relevância pandêmica comparável à do tabagismo e da obesidade. O panorama nacional reflete essa urgência, uma vez que dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico apontam expressivas taxas de inatividade no tempo livre entre adultos brasileiros, revelando fortes disparidades socioeconômicas, de gênero e de faixa etária. A epidemiologia, portanto, não apenas quantifica os níveis de prática corporal nas populações, mas identifica como as iniquidades estruturais afetam o acesso a ambientes promotores de saúde e ao tempo de lazer ativo.
No contexto cotidiano da Estratégia Saúde da Família (ESF), a tradução dessas evidências epidemiológicas em intervenções comunitárias eficazes exige uma atuação pautada pelo cuidado integral e multidisciplinar. A inserção de profissionais da Educação Física na Atenção Primária, impulsionada pelo Guia de Atividade Física para a População Brasileira, fortalece o vínculo entre os preceitos científicos da epidemiologia e as práticas territoriais de promoção da saúde. Debates acadêmicos e pedagógicos sobre o tema a exemplo de intervenções conduzidas por preceptores e residentes do programa de residência em Educação Física em eventos científicos e formativos reforçam o papel pedagógico dos profissionais em desmistificar o exercício físico como um privilégio individual, reconstruindo-o como um direito social e uma ferramenta fundamental de prevenção primária e secundária nas Unidades Básicas de Saúde.
A aplicação prática do raciocínio epidemiológico pelas equipes da Saúde da Família permite direcionar ações grupais e individuais de forma estrategicamente alinhada às necessidades específicas dos territórios de vulnerabilidade social. O planejamento de programas de práticas corporais no Sistema Único de Saúde (SUS) passa pelo mapeamento dos determinantes sociais da saúde, pela superação de barreiras urbanísticas e ambientais para o deslocamento ativo e pelo incentivo à autonomia dos sujeitos no autocuidado. Ao considerar as dimensões do lazer, do trabalho, do transporte e das tarefas domésticas na mensuração do nível de atividade física da comunidade, o profissional de saúde estabelece condutas terapêuticas mais realistas, humanizadas e alinhadas aos princípios da territorialização e da equidade que regem o sistema público de saúde.
Conclui-se que a consolidação da epidemiologia da atividade física como pilar normativo e operacional na Atenção Primária à Saúde constitui uma estratégia urgente e indispensável para mitigar a sustentabilidade financeira e social do SUS frente à carga crescente de doenças crônicas. O fortalecimento de programas de formação profissional e de residências em saúde com ênfase na saúde coletiva qualifica a atuação dos serviços, garantindo que o conhecimento científico produzido na academia se converta em intervenções efetivas nos territórios. Para que a atividade física exerça seu papel pleno na redução das mortalidades evitáveis e na promoção da qualidade de vida no Brasil, o Estado precisa assegurar o financiamento contínuo de políticas intersetoriais de lazer, urbanismo e transporte ativo, integrando de forma irrevogável o direito ao movimento ao direito fundamental à saúde.