A dor crônica representa um dos maiores desafios de saúde pública contemporâneos, impactando significativamente a capacidade funcional, a saúde mental e a qualidade de vida da população. Definida pela International Association for the Study of Pain (IASP) como a dor que persiste ou recorre por um período superior a três meses, essa condição ultrapassa a função fisiológica de alerta do organismo, tornando-se uma doença em si. No contexto da Atenção Primária à Saúde (APS), a complexidade e a alta prevalência dessa demanda exigem superação do modelo biomédico tradicional, centrado na prescrição farmacológica isolada. Estratégias coletivas e de acompanhamento longitudinal, como as desenvolvidas no encontro do Grupo Dor Crônica na Unidade de Saúde da Família (USF) Los Angeles, exemplificam como a integração multiprofissional no território pode reconfigurar o cuidado e ampliar a autonomia dos indivíduos acometidos.
A abordagem de grupos terapêuticos e educativos para o manejo da dor persistente encontra amplo respaldo na literatura científica e nas diretrizes internacionais. Segundo o Ministério da Saúde (2012), a atuação integrada de profissionais de enfermagem, medicina, fisioterapia, psicologia e educação física permite abordar os aspectos biológicos, psicológicos e sociais que perpetuam o ciclo da dor. Estudos disponibilizados na base SciELO destacam que as intervenções grupais pautadas na educação em dor neurofisiológica, no estímulo à atividade física gradual e nas técnicas de enfrentamento cognitivo-comportamental reduzem consideravelmente a dependência de analgésicos e opioides, além de diminuirem as consultas de urgência desnecessárias. Ao promover a troca de experiências entre pares, a USF Los Angeles fortalece a adesão ao tratamento não farmacológico, fator determinante para a dessensibilização central e para a recuperação da funcionalidade do paciente.
No âmbito da Estratégia Saúde da Família, a implementação contínua dessas ações coletivas alinha-se às recomendações da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), que defende o fortalecimento da atenção primária como eixo ordenador do cuidado às condições crônicas não transmissíveis. A dor crônica, quando negligenciada na APS, satura os níveis secundário e terciário de atenção com exames de imagem desnecessários e procedimentos invasivos de baixa eficácia para quadros não específicos. Dessa forma, a construção de espaços de apoio e educação em saúde dentro do território descentraliza o conhecimento, qualifica o vínculo entre a equipe e a comunidade e proporciona um acompanhamento longitudinal verdadeiramente efetivo, no qual o paciente deixa de ser um receptor passivo de condutas para se tornar o protagonista do seu processo de reabilitação.
Sob a perspectiva da gestão e da sustentabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS), a consolidação de grupos multiprofissionais para dor crônica nas unidades básicas reitera a eficiência resolutiva da atenção primária na mitigação dos impactos socioeconômicos da incapacidade funcional. A dor persistente é uma das principais causas de absenteísmo, aposentadoria precoce e adoecimento psíquico na população em idade produtiva, demandando respostas estruturadas da rede pública de saúde. A experiência observada na USF Los Angeles demonstra que a consolidação dessas práticas territoriais não apenas otimiza a alocação de recursos públicos, mas assegura os princípios da equidade e da integralidade. O sucesso e a sustentabilidade a longo prazo de iniciativas dessa natureza dependem da garantia de financiamento adequado, da qualificação permanente das equipes multiprofissionais e do fortalecimento da articulação intersetorial para promover a saúde integral da comunidade.