A Atenção Primária à Saúde (APS) desempenha papel estruturante na prevenção de complicações crônicas decorrentes do Diabetes Mellitus, condição de elevada prevalência e morbimortalidade no cenário epidemiológico brasileiro. Entre as complicações vasculares e neuropáticas de maior impacto funcional e socioeconômico destaca-se o pé diabético, síndrome caracterizada por ulceração, infecção ou destruição de tecidos profundos associada a alterações neurológicas e vascular periférica nos membros inferiores. O surgimento de hiperqueratoses, popularmente conhecidas como calosidades, constitui um sinal de alerta precoce que reflete pontos de pressão mecânica excessiva e perda da sensibilidade protetora. A intervenção qualificada sobre essas lesões pré-ulcerativas, como a observada no atendimento de manejo de calosidade em paciente com mal perfurante plantar realizado na Unidade de Saúde da Família (USF) Paulo Coelho pelo preceptor de Medicina de Família e Comunidade Carlos em conjunto com o residente da especialidade, exemplifica a centralidade do cuidado contínuo e integrado na prevenção de agravos irreversíveis no âmbito da Estratégia Saúde da Família.
O mal perfurante plantar representa uma manifestação clássica da neuropatia diabética periférica, na qual a perda progressiva da sensibilidade dolorosa e térmica impede que o indivíduo perceba traumatismos repetitivos e pressões sustentadas na região plantar. Sob a ótica da biomecânica do pé neuropático, a resposta fisiológica ao estresse mecânico contínuo é a formação de hiperqueratose reativa na tentativa de proteger o tecido subjacente. Contudo, essa camada de pele espessada atua como um corpo estranho rígido, aumentando ainda mais a pressão sobre os tecidos moles profundos e culminando em autólise tecidual, hematoma subqueratóxico e, eventualmente, na ruptura da barreira cutânea com formação de úlcera. A literatura científica aponta que a identificação e o desbridamento adequado de calosidades pré-ulcerativas reduzem significativamente as pressões plantares de pico, prevenindo a evolução para lesões ulceradas abertas e diminuindo o risco de infecções graves que frequentemente antecedem os processos de amputação.
A prática clínica pedagógica desenvolvida na USF Paulo Coelho reforça a relevância da preceptoria em Medicina de Família e Comunidade no aprimoramento do raciocínio diagnóstico e na execução de procedimentos ambulatoriais de menor complexidade, mas de alta complexidade decisória. A atuação conjunta entre preceptor e residente favorece a aplicação rigorosa de protocolos clínicos fundamentados em diretrizes nacionais e internacionais, tais como o rastreamento periódico do pé em risco por meio do teste de sensibilidade com monofilamento de 10 gramas de Semmes-Weinstein, a avaliação da perfusão arterial periférica e o exame detalhado das deformidades ortopédicas. Além disso, essa dinâmica preceptora consolida o aprendizado baseado no cuidado centrado na pessoa, integrando a intervenção técnica ao diálogo sobre autocuidado apoiado, escolha de calçados adequados e inspeção diária dos pés pelo paciente e sua rede de apoio domiciliar.
Do ponto de vista da saúde pública e da gestão do sistema de saúde, o manejo efetivo das lesões de pé diabético no nível primário de atenção reflete diretamente na redução do absenteísmo, na preservação da capacidade funcional do indivíduo e na diminuição expressiva dos custos associados a internações hospitalares prolongadas e procedimentos cirúrgicos de grande porte. A consolidação da rede de atenção à saúde depende da capacidade resolutiva das unidades básicas em identificar precocemente os fatores de risco e intervir antes do estabelecimento de danos tissulares extensos. A promoção de ações preventivas e a capacitação continuada das equipes multiprofissionais na APS alinham-se aos princípios da integralidade e da longitudinalidade do Sistema Único de Saúde, configurando-se como diretrizes indispensáveis para mitigar o impacto social e econômico das complicações vasculares e neuropáticas na população brasileira.