Na Unidade de Saúde da Família Paulo Coelho Machado, a integralidade do cuidado ganha um contorno singular. Ali, a residente de Educação Física não apenas orienta a prática de atividades físicas e a reabilitação funcional, mas também realiza auriculoterapia em seu próprio consultório, como parte da rotina de atendimentos. O que à primeira vista poderia parecer uma combinação incomum entre duas áreas distintas revela, na prática, a potência do trabalho multiprofissional e da incorporação das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) no cotidiano da Atenção Primária.
A auriculoterapia, técnica originária da Medicina Tradicional Chinesa que estimula pontos específicos na orelha para tratar desequilíbrios físicos e emocionais, foi integrada ao Sistema Único de Saúde por meio da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), instituída pela Portaria nº 971, de 3 de maio de 2006. Desde então, sua aplicação tem se expandido nas unidades básicas de saúde como uma ferramenta de baixo custo, alta resolutividade e mínimos efeitos adversos, especialmente indicada para o manejo de condições como ansiedade, insônia, dores crônicas e transtornos relacionados ao estresse (Brasil, 2006; Teles et al., 2022).
O que torna a experiência da USF Paulo Coelho Machado particularmente relevante é a forma como a auriculoterapia é ofertada: não como um serviço isolado ou terceirizado, mas como uma atribuição integrada ao fazer de uma profissional da Educação Física. Essa configuração desafia a visão tradicional de que as PICS seriam domínio exclusivo de formações específicas e aponta para um modelo de cuidado no qual o profissional de saúde, independentemente de sua formação de base, amplia seu arsenal terapêutico a partir do vínculo com o usuário e do conhecimento das necessidades do território. A residente, ao incorporar a auriculoterapia à sua rotina, não abandona sua formação original — pelo contrário, a potencializa, ao oferecer um cuidado que leva em conta a pessoa em sua totalidade.
Estudos recentes publicados na SciELO e na Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade corroboram essa perspectiva. Uma revisão sistemática conduzida por Oliveira et al. (2023) demonstrou que a auriculoterapia aplicada na Atenção Primária apresenta resultados significativos na redução dos níveis de ansiedade e na melhora da qualidade do sono em usuários acompanhados por equipes multiprofissionais. Outro trabalho, de Santos e colaboradores (2021), evidenciou que a incorporação das PICS por profissionais não médicos, como enfermeiros e educadores físicos, amplia o acesso da população a essas práticas e fortalece o vínculo terapêutico, uma vez que o profissional já conhece a história de vida e o contexto social do paciente.
A iniciativa da USF Paulo Coelho Machado dialoga diretamente com as diretrizes da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), que preconiza um cuidado centrado na pessoa, resolutivo e construído a partir das necessidades locais. Ao oferecer a auriculoterapia dentro do próprio consultório da residente de Educação Física, a unidade reduz barreiras de acesso — o usuário não precisa ser referenciado a outro serviço ou esperar por um agendamento externo. O cuidado acontece no mesmo espaço, no mesmo vínculo, na mesma conversa em que se discute a prática de exercícios ou a recuperação de uma lesão.
Esse arranjo, no entanto, não está isento de desafios. A inserção das PICS na rotina dos serviços de saúde ainda enfrenta obstáculos que vão desde a formação insuficiente dos profissionais até a resistência de gestores que enxergam essas práticas como complementares em um sentido marginal, e não como parte integrante do cuidado. A experiência da USF Paulo Coelho Machado sugere que, quando há investimento na capacitação profissional e abertura para a experimentação de novos arranjos assistenciais, as PICS deixam de ser um apêndice do sistema para se tornarem uma ferramenta cotidiana de promoção da saúde e prevenção de agravos.
Em um cenário no qual a Atenção Primária brasileira enfrenta o desafio crescente de responder a demandas complexas com recursos finitos, a ampliação do repertório terapêutico dos profissionais de saúde emerge como uma estratégia não apenas inteligente, mas necessária. A auriculoterapia realizada por uma residente de Educação Física na USF Paulo Coelho Machado é um microcosmo do que o SUS pode ser quando a rigidez das fronteiras profissionais dá lugar à colaboração, à criatividade e ao compromisso com o bem-estar do usuário. É, antes de tudo, a demonstração de que o cuidado integral não se constrói com mais especialidades — constrói-se com profissionais que enxergam o paciente para além do protocolo.