A Atenção Primária à Saúde ocupa um lugar estratégico no acolhimento, na escuta qualificada e na articulação da rede de cuidado e proteção às mulheres em situação de violência. Foi com esse entendimento que, no dia 11 de julho, residentes do Projeto Qualifica APS participaram do ciclo de palestras “NUDEM e Atenção Primária no Enfrentamento à Violência de Gênero: uma atuação em rede”, realizado no Auditório Multiuso da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande.
Promovido pelo Núcleo Institucional de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres — NUDEM — em parceria com a Escola da Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul, o encontro buscou fortalecer a formação em serviço e ampliar a atuação integrada dos profissionais da APS diante de um dos desafios mais sensíveis e complexos da saúde pública: o enfrentamento à violência de gênero. A programação abordou temas estruturantes para a prática cotidiana nas unidades de saúde, como a Lei Maria da Penha e o papel dos profissionais de saúde, o atendimento diante da violência sexual e a organização da rede de atendimento e proteção à mulher, evidenciando que o cuidado, nesses casos, vai muito além do diagnóstico e da prescrição.
Reconhecer uma situação de violência exige preparo técnico, mas igualmente — e talvez principalmente — sensibilidade para acolher sem julgamentos, saber escutar, identificar sinais nem sempre explícitos, registrar adequadamente cada caso e realizar encaminhamentos responsáveis e articulados com os demais serviços da rede. A violência de gênero não se resolve no interior de um consultório isolado; demanda uma teia de proteção que conecta saúde, assistência social, segurança pública e justiça. Nesse cenário, a Educação Permanente em Saúde deixa de ser um complemento na formação profissional e passa a ser condição indispensável para que o cuidado seja humanizado, seguro e integral.
O Projeto Qualifica APS, fruto da parceria entre a Fiocruz e a Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande, reafirma, com iniciativas como essa, seu compromisso com a qualificação profissional, a formação em serviço e o fortalecimento da Atenção Primária como porta de entrada e ordenadora do cuidado no Sistema Único de Saúde. Iniciativas como o ciclo de palestras promovido pelo NUDEM e pela Defensoria Pública não apenas ampliam o repertório técnico dos profissionais, mas sinalizam um caminho promissor para que a rede de proteção às mulheres seja cada vez mais articulada, resolutiva e capaz de responder às vulnerabilidades que atravessam o território.
Em um país onde a violência contra a mulher persiste como grave problema estrutural de saúde pública, investir na formação dos profissionais que estão na linha de frente do cuidado não é apenas necessário — é urgente. E a Atenção Primária, pela capilaridade e pela proximidade com o território, continua sendo o espaço mais potente para que essa transformação aconteça.