A Unidade de Saúde da Família (USF) Moreninha, por intermédio da Equipe Jacques da Luz, realizou uma ação inovadora de educação em saúde na sala de espera, alinhada à campanha nacional do Março Amarelo, dedicada à conscientização sobre a endometriose. Essa iniciativa surge em um contexto em que a doença afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no Brasil, impactando aproximadamente 7 milhões de brasileiras, conforme estimativas do Ministério da Saúde e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) (Brasil, 2016; Febrasgo, 2021). A endometriose, caracterizada pelo crescimento de tecido endometrial fora do útero, manifesta-se principalmente por dor pélvica crônica, dismenorreia intensa, dispareunia e infertilidade, sintomas que frequentemente são subdiagnosticados, levando a um atraso médio de 7 a 10 anos no diagnóstico (Bocate et al., 2025).
Durante a atividade, a equipe abordou de forma acessível os principais sintomas da endometriose, como a dor cíclica associada ao período menstrual, fadiga crônica e problemas intestinais ou urinários, enfatizando a importância do diagnóstico precoce. Estudos epidemiológicos brasileiros, disponíveis em bases como SciELO e PubMed, reforçam que o reconhecimento precoce na Atenção Primária à Saúde (APS) pode mitigar complicações, como a infertilidade observada em 30% a 50% das afetadas (Bocate et al., 2025; Laís et al., s.d.). O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para Endometriose, aprovado pela Portaria nº 879/2016 do Ministério da Saúde e atualizado em 2025, orienta o manejo inicial na APS, com ênfase em anamnese detalhada, exame físico e exames complementares como ultrassonografia transvaginal, promovendo o cuidado integral e multidisciplinar (Brasil, 2016; Brasil, 2025a).
A ação não se limitou à transmissão de informações técnicas; ela fomentou o diálogo aberto com as usuárias, criando um espaço de escuta qualificada onde experiências pessoais foram compartilhadas e dúvidas esclarecidas. Essa abordagem reflete as recomendações da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), que destacam a necessidade de ações comunitárias para empoderar as mulheres e fortalecer o vínculo com os serviços de saúde (OPAS/OMS, 2022). Na prática da Saúde da Família, essa estratégia alinha-se ao modelo de cuidado contínuo, onde a equipe multiprofissional – médicos, enfermeiros e agentes comunitários – atua na detecção precoce e no acompanhamento territorial, evitando a sobrecarga de serviços especializados.
O impacto da endometriose transcende o indivíduo, repercutindo na qualidade de vida, no desempenho laboral e nas relações interpessoais, com evidências de redução significativa na escala SF-36 de qualidade de vida em mulheres não tratadas (Janaína et al., s.d.). No Brasil, os atendimentos na APS por essa condição cresceram 76,2% nos últimos três anos, sinalizando maior visibilidade, mas também a urgência de políticas públicas robustas (Brasil, 2025b). Iniciativas como a da USF Moreninha exemplificam o potencial da APS na prevenção de agravos, ampliando o acesso ao cuidado e combatendo o estigma associado a uma doença historicamente invisibilizada.
Na perspectiva da saúde pública brasileira, ações educativas como essa são cruciais para desconstruir barreiras ao diagnóstico e tratamento, especialmente em territórios vulneráveis. Contudo, persistem desafios, como a escassez de especialistas e o subfinanciamento da APS, que demandam investimentos contínuos para traduzir evidências científicas em práticas cotidianas. Ao promover o empoderamento feminino e o acolhimento humanizado, a USF Moreninha não apenas cumpre seu papel preventivo, mas contribui para uma rede de saúde mais equitativa e resolutiva, alinhada aos princípios do SUS.