A Atenção Primária à Saúde constitui a porta de entrada preferencial e o centro de comunicação da rede assistencial do Sistema Único de Saúde (SUS), desempenhando papel decisivo no acompanhamento pré-natal de baixa complexidade. Nesse cenário, o exame físico obstétrico se consolida não apenas como um conjunto de manobras semióticas, mas como uma ferramenta fundamental para a vigilância da saúde materno-infantil, capaz de identificar precocemente alterações do desenvolvimento fetal e intercorrências maternas. Em territórios caracterizados por dinâmicas socioeconômicas complexas e alta demanda assistencial, como o bairro Coophavila II em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, a padronização e o rigor na execução do exame físico obstétrico na Unidade Básica de Saúde da Família garantem a resolutividade do cuidado e a redução dos índices de morbimortalidade materna e perinatal.
O ponto de partida da avaliação semiótica obstétrica reside na inspeção e palpação do abdome gravídico, cujo ápice metodológico se dá através da aplicação das manobras de Leopold-Pinard. Desenvolvidas no final do século XIX, essas quatro etapas sequenciais permitem determinar a situação, a posição, a apresentação e o grau de insinuação do feto no bacia materna (FREITAS et al., 2017). Na rotina diária da Unidade de Saúde da Família do Coophavila II, a execução criteriosa do primeiro tempo da manobra identifica qual polo fetal ocupa o fundo uterino, permitindo estimar indiretamente a estática fetal e correlacionar a altura do fundo uterino com a idade gestacional. A aferição da altura uterina, medida em centímetros a partir da borda superior da sínfise púbica até o fundo do útero, deve ser plotada de forma contínua na curva do cartão da gestante, servindo como parâmetro sentinela para o rastreio de desvios do crescimento fetal, como a restrição de crescimento intrauterino e a macrossomia (BRASIL, 2022).
A continuidade da palpação abdominal fornece dados vitais sobre a orientação do dorso fetal no segundo tempo da manobra, elemento decisivo para a correta ausculta dos batimentos cardíacos fetais. A ausculta, realizada com o sonar Doppler ou com o estetoscópio de Pinard a partir da 12ª e 20ª semanas de gestação, respectivamente, avalia a frequência e o ritmo cardíaco do feto, cuja faixa de normalidade se mantém entre 110 e 160 batimentos por minuto (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2018). O terceiro e o quarto tempos de Leopold definem a apresentação fetal no estreito superior da bacia e o nível de flexão da cabeça, dados essenciais para o planejamento do parto à medida que o terceiro trimestre avança. No contexto das consultas de pré-natal de enfermagem e medicina da família no Coophavila II, a interpretação dessas manobras alinha o diagnóstico clínico às diretrizes de humanização, assegurando que intervenções desnecessárias sejam evitadas e encaminhamentos para a atenção secundária sejam realizados em tempo oportuno.
Além da avaliação estritamente abdominal, o exame físico obstétrico integral abrange a aferição rigorosa dos sinais vitais maternos, com ênfase na pressão arterial, a identificação de edemas em membros inferiores e a avaliação das mamas. A detecção precoce de níveis pressóricos iguais ou superiores a 140/90 mmHg constitui pilar crítico para o diagnóstico das síndromes hipertensivas da gestação, uma das principais causas de mortalidade materna no Brasil (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2019). No território de Coophavila II, a integração do exame físico às visitas domiciliárias realizadas pelos Agentes Comunitários de Saúde e pela equipe multidisciplinar permite contextualizar os achados clínicos com os determinantes sociais da saúde, tais como a vulnerabilidade social, o saneamento e o suporte familiar, fatores que influenciam diretamente a adesão ao pré-natal e o desfecho da gestação.