A transição demográfica e epidemiológica vivenciada pelo
Brasil nas últimas décadas impôs ao Sistema Único de Saúde (SUS) o desafio de
reorganizar seu modelo assistencial para responder à crescente prevalência das
Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). No cenário da Atenção Primária à
Saúde (APS), a Hipertensão Arterial Sistêmica e o Diabetes Mellitus constituem
as duas condições de maior impacto na morbimortalidade cardiovascular e
metabólica da população. Criado originalmente como um plano de reorganização da
atenção às doenças crônicas, o programa conhecido popularmente como Hiperdia
evoluiu de uma estratégia focado no cadastramento e na dispensação de
medicamentos para se transformar em uma diretriz tática de vigilância em saúde
no território sob responsabilidade da Estratégia Saúde da Família (ESF). A
consolidação dessa assistência no ambiente comunitário representa o divisor de
águas entre a intervenção precoce resolutiva e o surgimento de desfechos
graves, como o acidente vascular cerebral, o infarto agudo do miocárdio e a
insuficiência renal crônica em estágio terminal.
A fundamentação fisiopatológica e epidemiológica que rege o
acompanhamento sistemático desses indivíduos no território baseia-se no fato de
que tanto a hipertensão quanto o diabetes compartilham mecanismos de dano
endotelial, estresse oxidativo e inflamação subclínica continuada. A ausência
de um monitoramento contínuo favorece a progressão silenciosa das lesões em
órgãos-alvo, comprometendo a micro e a macrovasculatura (BRASIL, 2013). Quando
o Hiperdia é reduzido a um encontro burocrático para renovação de prescrições
médicas, perde-se a oportunidade fundamental de realizar a estratificação de
risco cardiovascular, a avaliação do pé diabético e o rastreamento de
microalbuminúria. A literatura científica demonstra de forma inequívoca que o
controle pressórico e glicêmico rigoroso só é alcançado quando a abordagem clínica
está associada a intervenções não farmacológicas sustentadas no tempo, o que
exige da equipe de saúde um conhecimento aprofundado dos determinantes sociais
que condicionam o estilo de vida de cada comunidade.
A operacionalização do Hiperdia no território exige a
superação do modelo tradicional centrado na consulta médica individual,
migrando para uma prática multiprofissional e descentralizada. A atuação
articulada entre médicos, enfermeiros, cirurgiões-dentistas, técnicos de enfermagem
e agentes comunitários de saúde permite que o cuidado transcenda os limites
físicos da Unidade Básica de Saúde. O acolhimento em grupos operativos de
educação em saúde, as visitas domiciliares a pacientes acamados ou com
mobilidade reduzida e a checagem da adesão farmacológica são ferramentas
cruciais para a construção da autonomia do usuário frente à sua condição
crônica. Além disso, a inserção das equipes de Saúde Bucal na rotina do
Hiperdia é indispensável, dada a relação bidirecional comprovada entre a doença
periodontal grave e a descompensação do controle glicêmico em pacientes
diabéticos, bem como o impacto das infecções orais sobre a inflamação sistêmica.
Sob a ótica da saúde pública brasileira, a eficácia do
Hiperdia reflete diretamente a capacidade de gestão e o financiamento da
Atenção Primária no país. O subfinanciamento crônico, a rotatividade de
profissionais nas equipes de saúde e a irregularidade no abastecimento de
insumos e medicamentos essenciais figuram como os principais entraves para a
consolidação de uma rede de atenção verdadeiramente contínua e resolutiva.
Quando a vigilância no território falha, o sistema público de saúde
sobrecarrega as unidades de pronto atendimento e a rede hospitalar com
internações por condições sensíveis à atenção primária, elevando drasticamente
os custos operacionais do SUS e impondo um severo sofrimento físico e social
aos indivíduos e suas famílias. O fortalecimento das ações territorializadas do
Hiperdia consolida-se, portanto, como uma medida ética, epidemiológica e
econômica indispensável para a sustentabilidade do sistema sanitário nacional.