A USF Serradinho recebeu mais uma atividade do Canal do Núcleo de Odontologia, desta vez dedicada à discussão do Código de Ética Odontológico, tema central para a formação profissional, para a organização do processo de trabalho em saúde bucal e para a qualificação da assistência prestada à população no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa reforça a importância de incorporar a reflexão ética aos espaços formativos da residência em saúde, reconhecendo que a qualidade do cuidado não depende apenas de domÃnio técnico, mas também da capacidade de conduzir a prática clÃnica com responsabilidade, prudência e compromisso público.
A atividade foi conduzida pela preceptora Mônica Abreu, com participação da residente Maria Vitória Carcano, em um encontro voltado à análise dos princÃpios que orientam o exercÃcio profissional da odontologia. Mais do que uma revisão normativa, a discussão assumiu caráter pedagógico e crÃtico, ao promover um espaço de diálogo sobre situações concretas do cotidiano dos serviços, nas quais a ética profissional se expressa na tomada de decisão clÃnica, na relação com os usuários e na forma como o cuidado é ofertado em contextos marcados por demandas sociais complexas. Esse tipo de abordagem é especialmente relevante na Atenção Primária à Saúde, onde o vÃnculo com o território e a longitudinalidade do cuidado exigem dos profissionais sensibilidade técnica, postura ética e compreensão ampliada das necessidades de saúde.
Durante o encontro, foram debatidos aspectos relacionados à responsabilidade profissional, à relação com os usuários dos serviços de saúde e à s condutas éticas no cotidiano da prática clÃnica. Esses elementos dialogam diretamente com os referenciais da bioética e com as diretrizes que estruturam as profissões da saúde no Brasil, especialmente no que se refere aos deveres de zelo, sigilo, respeito à autonomia, informação adequada ao paciente e compromisso com a dignidade humana. No campo odontológico, a observância desses princÃpios não se limita à prevenção de infrações disciplinares, mas constitui um eixo estruturante da prática profissional, uma vez que a ética organiza a forma como o saber técnico é colocado a serviço da vida, da integralidade do cuidado e da proteção dos direitos dos usuários.
A discussão também evidenciou que, no SUS, o tema da ética assume dimensão ainda mais ampla. Isso porque a atuação dos profissionais de saúde bucal está inserida em uma rede pública orientada pelos princÃpios da universalidade, da equidade e da integralidade, o que exige permanente reflexão sobre acesso, acolhimento, prioridade clÃnica, humanização e justiça sanitária. Nesse contexto, o Código de Ética Odontológico funciona não apenas como instrumento normativo da categoria, mas como referência para uma prática comprometida com o interesse público, com a segurança do paciente e com a legitimidade social do trabalho em saúde. A literatura em saúde coletiva tem demonstrado que ambientes formativos que valorizam a problematização ética tendem a produzir profissionais mais preparados para lidar com conflitos morais, vulnerabilidades sociais e decisões clÃnicas complexas, sobretudo em cenários de cuidado compartilhado e interdisciplinar.
Momentos formativos como o realizado na USF Serradinho integram estratégias essenciais de qualificação da residência em saúde, ao fortalecer a articulação entre ensino e serviço e ao consolidar uma cultura institucional baseada em reflexão crÃtica, responsabilidade sanitária e compromisso ético. Ao investir na discussão sistemática de temas dessa natureza, os programas de formação contribuem para a construção de trajetórias profissionais menos centradas em procedimentos e mais orientadas por princÃpios, relações e efeitos concretos do cuidado sobre a vida das pessoas. Em um sistema público de saúde que enfrenta desafios permanentes de financiamento, acesso e qualidade assistencial, ampliar o lugar da ética na formação e na prática cotidiana da odontologia não é um complemento, mas uma exigência para a consolidação de um cuidado tecnicamente qualificado, socialmente responsável e coerente com os fundamentos do SUS.
Do ponto de vista da saúde pública brasileira, iniciativas como essa têm impacto que ultrapassa o espaço pedagógico imediato. Ao formar profissionais capazes de compreender a ética como dimensão inseparável da prática clÃnica e da gestão do cuidado, fortalece-se a própria capacidade do SUS de ofertar atenção em saúde bucal com qualidade, segurança e legitimidade social. Mais do que discutir normas, encontros dessa natureza ajudam a construir uma odontologia comprometida com direitos, com a humanização das práticas e com a produção de cuidado em sentido amplo, elemento indispensável para responder, de forma crÃtica e qualificada, à s necessidades reais da população.